Entrevista sobre o livro “Formação de professores para uma educação plural e democrática”

Na quarta-feira, dia 21 de agosto, a EdUERJ lança o livro Formação de professores para uma educação plural e democrática. O Blog da EdUERJ conversou com o professor Luiz Conde Sangenis, um dos responsáveis pela organização do livro. Ele é professor associado da Faculdade de Formação de Professores da UERJ e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação: Processos Formativos e Desigualdades Sociais.

 

Professor, conte um pouco sobre a seleção dos textos que compõem o livro.

O livro reúne 18 textos escritos por 32 professores/pesquisadores de diversas universidades e centros de formação de professores do Brasil, da Argentina, da Colômbia, do México e de Portugal. O fio condutor da obra é a formação de professores, especialmente, na América Latina. O trabalho do grupo de pesquisa Vozes da Educação da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, em São Gonçalo, é o catalizador desse belíssimo time de autores. Os textos apresentam narrativas, experiências e reflexões sobre a formação docente no contexto nacional e latino-americano, em um momento em que está em curso um projeto político-ideológico e econômico determinado a restringir direitos políticos, sociais, civis e fazer avançar formas de capitalismo concentrador de riquezas que aumenta velozmente o fosso entre ricos e pobres. Sinais desse processo ganham visibilidade nas privatizações dos serviços públicos, nos cortes profundos nos investimentos em saúde e em educação e na tentativa de desapropriação docente do exercício autônomo de sua profissão. A ideia da escola sem partido vem nessa direção. Vemos que o atual governo está fazendo cortes substantivos na educação básica e superior, bem como na área de ciência e tecnologia. Vivemos tempos em que professores, cientistas e artistas são tratados como inimigos do governo. Creio que o livro chega numa boa hora em que temos que unir forças para resistirmos à truculência, à ignorância e à pós-verdade.

 

Sabemos que o Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão “Vozes da Educação: Memórias, Histórias, Formação de Professores” inspirou o lançamento do livro. Conte-nos um pouco sobre as atividades do grupo.

O Grupo de Pesquisa e Extensão Vozes da Educação: memória(s), história(s) e formação de professores(as), ao longo dos seus mais de 22 anos de existência construiu uma trajetória bonita. Nossas ações buscam constituir espaços de memória, narração e formação para estudantes, professores e pesquisadores em um permanente diálogo com a cidade de São Gonçalo e com os municípios localizados no Leste Fluminense, tendo como princípio a articulação pesquisa-ensino-extensão. O Grupo Vozes da Educação promoveu seis seminários Internacionais de Educação. Aliás, o livro que estamos lançando é um dos produtos do nosso último seminário. Trata-se do nosso sétimo livro de produção coletiva, este, com financiamento da CAPES. Em início de dezembro, o Grupo Vozes está promovendo o seu sétimo seminário que tem o tema: Vozes da Educação: resistências políticas e poéticas na vida e na educação. Nesse evento, vamos homenagear a professora e pesquisadora Regina Leite Garcia, recentemente falecida, e que é uma referência importante para a área da educação. Desejamos convidar todos os educadores, professoras e professores da educação básica e superior, alunas e alunos da graduação e da pós-graduação, bem como pesquisadoras e pesquisadores da área da Educação e áreas afins para que venham estar conosco nesse VII Vozes.

 

A relação entre movimentos sociais e direito à educação é debatida em alguns textos do livro. Na sua opinião, os movimentos sociais podem ser encarados como “agentes” de formação de professores? Por quê?

Os movimentos sociais são muito importantes para a sociedade brasileira, marcada por imensas desigualdades. Hoje, os movimentos sociais são criminalizados e mesmo desqualificados por parte da nossa sociedade. Desde a redemocratização do Brasil, na década 80 do século passado, os movimentos sociais tiveram um protagonismo político importantíssimo na cena social brasileira: os movimentos de trabalhadores rurais e urbanos, de sem-terra e de sem teto, de minorias étnico-raciais e sexuais, de negros e de indígenas, de mulheres, de gays e de lésbicas, ou movimentos reivindicatórios de direitos por educação, saúde, emprego, moradia, trabalho e etc. No campo da educação, os movimentos sociais reivindicam mais e melhores escolas, e diria mesmo, outras escolas, no sentido de projetos educacionais alternativos que sejam contra a hegemonia do capital que tudo quer transformar em mercadoria e produto de mercado e de venda. Os movimentos sociais sempre valorizaram a escola pública, laica, com financiamento público e de qualidade. O diálogo entre escola, educadores e movimentos sociais é imprescindível. Acabou o tempo em que a escola se fechava entre seus muros, apartando-se da realidade, do mundo tal qual ele é, das ruas, do mundo do trabalho e de outras instituições sociais e produtivas. A própria participação política dos estudantes e dos professores nos movimentos sociais, bem como a permeabilidade da escola em absorver e a assumir as suas lutas que pretendem a transformação da sociedade têm consequências formativas. Apenas para exemplificar, a escola e os professores não podem simplesmente agir, e continuar a fazer o seu trabalho, sem se afetar com o fenômeno da exclusão promovida pelo próprio sistema educacional. A minoria dos que entraram na escola concluem o ensino médio, e ainda uma parcela muito diminuta ascende ao ensino superior. Outro exemplo é a luta das mães e mulheres trabalhadoras pela ampliação das creches públicas para seus filhos, como parte inicial da educação infantil. Democratizar e aumentar a eficácia do sistema educacional é um trabalho dos professores, sem dúvida, mas só será bem-sucedido com o engajamento de todos os segmentos sociais e políticos, reivindicando ao estado os direitos sociais que ainda são negados aos mais pobres.

 

Alguns capítulos sugerem que a formação de professores seria um caminho para transformação da educação brasileira. Que aspectos dessa formação, inicial ou continuada, você apontaria como cruciais às mudanças na qualidade da educação brasileira?

A formação de professores, de fato, é um dos principais caminhos para a transformação da educação brasileira. Diferente do discurso fácil, que tenta desqualificar os professores, que seriam mal preparados para exercer o magistério, partimos da premissa de que os professores são o elemento central dessa transformação. De nada adianta uma bela formação técnico-pedagógica se não estão encharcados da realidade do povo brasileiro, especialmente, das camadas populares mais pobres que frequentam a escola pública. As competências políticas e éticas são tão importantes quanto as pedagógicas e instrumentais. Sem a empatia com a cultura popular brasileira, sem amar e valorizar a experiência dos mais pobres não se faz boa educação. Os professores e as escolas, sobretudo as instâncias formativas, têm de mudar suas perspectivas de currículo, ainda preso a padrões de épocas passadas, de modo a saber lidar com abordagens interdisciplinares e com as tecnologias e mídias disponíveis, integrando-as ao seu fazer pedagógico, trabalhar cooperativamente em projetos didáticos envolvendo, inclusive, a comunidade. Formar professores, como disse Bernardete Gatti, em seu capítulo, é formar para a formação das futuras gerações, responsabilidade que as instituições de ensino superior, especialmente as públicas, são chamadas a cumprir.

 

De que forma você acredita que a leitura da obra possa ajudar os profissionais ou estudantes da área?

A obra é um convite para pensarmos a formação de professores e a educação contemporânea, de modo mais geral, sob perspectivas plurais e democráticas, conforme sugere o título. O livro apresenta muitas narrativas interessantes e faz provocações inspiradoras: trajetórias de vida e de formação das professoras e dos professores, questões curriculares candentes como a “desheterossexualização” do currículo, reflexões sobre a educação de jovens e adultos, a educação inclusiva, a educação ambiental, as relações étnico-raciais, as lutas por educação travadas pelos movimentos sociais, o papel das redes na formação de professoras e de professores, inclusive assuntos que promovem enlaces entre a escola, a escrita acadêmica, a literatura e a cultura popular brasileira.

 

 

O lançamento do livro Formação de professores para uma educação plural e democrática – organizado por Luiz Fernando Conde Sangenis, Elaine Ferreira Rezende de Oliveira e Heloísa Josiele Santos Carreiro – será dia 21 de agosto (quarta-feira), às 17:30 h, na Livraria EdUERJ, próximo ao hall dos elevadores (térreo).

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