Entrevista com professora Jane Paiva, organizadora de Aprendizado ao longo da vida

Na Quarta-feira, 3 de julho, a Editora da UERJ lança Aprendizado ao longo da vida: sujeitos, políticas e processos educativos.

O Blog da EdUERJ conversou com Jane Paiva, organizadora do livro. Ela é doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (ProPEd) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O lançamento de Aprendizado ao longo da vida: sujeitos, políticas e processos educativos ocorre na Livraria da EdUERJ, das 12h às 13h.

Segue na íntegra a entrevista.

xxxxx

Sobre o processo de organização do livro, gostaria de saber como foi a escolha dos artigos?

O livro foi organizado tendo como base o I Colóquio Internacional Aprendizados ao longo da vida, realizado em novembro de 2017, sob a temática concepções e sentidos cotidianos para a leitura e a escrita desde a alfabetização para jovens, adultos e idosos, escolhida pela vinculação com o nosso projeto de pesquisa que se encerrava, na ocasião, financiado pelo Prociência UERJ e pela bolsa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE) da Faperj. Aos pesquisadores convidados ao Colóquio foi oferecida a oportunidade de desenvolverem artigos, a partir dos resumos expandidos enviados e discutidos com demais pesquisadores, compondo o livro. Os que aceitaram e puderam encaminhar os textos no tempo previsto, tiveram seus artigos avaliados por pareceristas externos à UERJ sendo, então, incluídos.

O título do livro (Aprendizados ao longo da vida) tem algo de poético. Por favor, comente como surgiu essa opção. (De quem é o aprendizado a que faz referência?)

Nosso livro reflete conhecimentos e achados de pesquisas no campo da educação de jovens e adultos (EJA), campo vasto que, ao contrário do que muita gente pensa, não trata apenas de alfabetização, nem de escolarização de quem foi interditado da escola no tempo da infância. O campo tenta compreender como se dão as produções cotidianas, os aprendizados fruto de experiências vivenciadas de sujeitos jovens, adultos e idosos — porque entendemos que os sujeitos aprendem do momento que nascem até o dia em que morrem, em processo contínuo de humanização — que constituem o corpo de conhecimentos e saberes das diferentes culturas, no mundo, ao longo de toda a vida, forjados em todos os espaços sociais de formação humana. O título não só remete ao nome de nosso Colóquio, como também encerra os sentidos de nosso Grupo de Pesquisa CNPq (https://jansedapaiva.wixsite.com/aprendizadolongovida). A poética é, para nós, um relevante dispositivo de nosso modo de ser professora e pesquisadora.

Diversos capítulos enfatizam o fato de a educação ser um direito do cidadão. Sob esse ponto de vista, como você avalia a efetividade hoje de programas para a educação de jovens e adultos, como o Proeja?

O sentido do direito à educação como pilar da cidadania e da dignidade humana permeia não somente nosso livro, mas todas as pesquisas desenvolvidas em nosso Grupo de Pesquisa, incluindo mestrandos, doutorandos e bolsistas de iniciação científica. O Proeja é um programa que tem destacadamente permitido a produção acadêmica em diversos eixos, objetos de estudo e problemáticas, existindo, na atualidade, grande produção teórica em 13 anos de atividades. Marcadamente, o Proeja vem mudando a vida de muitos homens e mulheres que tiveram a oportunidade de cursá-lo e vivenciar o direito à educação média articulada com a educação profissional.

O capítulo de sua autoria, “De memória em memória: traçando histórias na educação de jovens e adultos” chama a atenção para o trabalho de levantamento e análise do seu grupo de pesquisa sobre a alfabetização de adultos entre 1970 a 1990. É possível perceber uma evolução significativa da EJA entre o início e o fim do período pesquisado?

A pesquisa, em síntese, não tinha como objetivo avaliar se houve ou não evolução do conceito, mas, sim, como ele vai se expressando, dependendo de realidades, contextos, elementos implicados nos tempos históricos em que se vive e nas ofertas de escolarização para jovens e adultos que são feitas. Sabe-se, há muito, que este campo da EJA sempre foi uma arena de disputas. Disputas porque muitos consideram que alfabetizar põe em risco o sistema de privilégios que a nossa sociedade mantinha e até hoje mantém; abala a cultura servil a que são submetidas as populações pobres e pouco escolarizadas; enfim, põe a nu a imensidão de questões que uma sociedade de classes, extremamente desigual, de origem escravocrata, ainda arrasta no seu modo de pensar a nação, o outro, os que “podem ter” e não podem ter direitos. Estamos longe de cumprir o preceito constitucional de educação para todos, independentemente da idade. Então, como conceitos são históricos, ora eles se encobrem e não têm visibilidade, ora são transparentes e bem enunciados sem que, no entanto, a realidade de quem não sabe ler e escrever mude, porque muitos elementos desses contextos, embora se modifiquem, não superam aspectos injustos que se entrelaçam com a possibilidade de ler e escrever, em uma sociedade que trata a leitura e a escrita como privilégio de poucos, e o saber como propriedade de alguns.

A leitura de Aprendizado ao longo da vida: sujeitos, políticas e processos educativos contribui para debater o processo inclusivo da educação. Em que ponto você acredita que a EJA ainda precisa se desenvolver?

Primeiro, é preciso destacar que não tratamos a EJA como processo de inclusão. A EJA ganhou o status de direito social (educação como direito de todos), desde a promulgação da Constituição Federal (CF) de 1988. Portanto, a primeira luta que nós, pesquisadores do campo travamos, é por fazer valer a concepção de que a oferta de EJA se faz por ser direito do cidadão e dever do Estado, e não como política assistencialista. Este é ponto de honra para todos nós. Quanto ao que ainda se precisa desenvolver na EJA, tem muito mais a ver com a compreensão dessas concepções — que nós constituímos ao longo de tantos anos de estudos e pesquisas — por governantes, gestores e mesmo profissionais da educação, especialmente professores, no papel que cada um desempenha no sistema: a) governantes cumprindo a CF quanto à oferta como dever do Estado; b) gestores (secretários de educação, diretores, coordenadores, agentes políticos em instâncias regionais etc.) exercendo o papel inequívoco de aplicar correta e adequadamente recursos públicos para garantir a equidade da oferta, considerando o georreferenciamento, que demonstra onde estão os que precisam de escolarização e assegurando horários possíveis de turmas, em diferentes turnos, para que eles possam estudar (a escola não pode ser só de crianças e adolescentes, deixando seus pais e famílias sem atendimento!); c) professores desenvolvendo práticas pedagógicas compatíveis com a condição de jovens, de adultos, de idosos que desenvolveram saberes na vida e cujos modos de aprender, portanto, são muito diversos das crianças. Práticas pedagógicas que levem em conta o que já sabem, sua autonomia e conhecimento que permitiram que eles produzissem a própria vida, criassem filhos, formassem famílias, trabalhassem e resolvessem seu estar e atuar no mundo, segundo a complexidade da vida e do agir de cada um.

A quem você indicaria a leitura de Aprendizados ao longo da vida?

A todos e todas que se interessam pelo campo da EJA: estudantes de graduação de todas as licenciaturas; profissionais professores das redes públicas de todas as áreas e níveis de ensino; gestores, governantes; mestrandos e doutorandos que se formam como pesquisadores; pesquisadores do campo da EJA e dos campos que travam, conosco, interlocução.

Share this post
  , , , , ,


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *