EdUERJ recebe o Prêmio Jabuti

Na quinta-feira, dia 30 de novembro, a Editora da UERJ recebe o Prêmio Jabuti pela publicação de “Machado de Assis e o cânone ocidental”, de Sônia Netto Salomão. O livro conquistou o primeiro lugar na categoria Teoria/Crítica literária, Dicionário e Gramáticas.

A primeira colocação configurou uma conquista inédita para a Editora, visto que o Jabuti anterior fora conquistado, em 2014, com o terceiro lugar. Na época, o livro laureado foi Ciência do futuro e futuro da ciência: redes e políticas de nanociência e nanotecnologia no Brasil, de Jorge Luiz dos Santos Junior, na categoria Ciências exatas, tecnologia e informática.

 

Para o editor executivo da EdUERJ, professor Glaucio Marafon, o troféu atual chega em boa hora:
– Um prêmio como o Jabuti ajuda a trazer visibilidade para o trabalho que a Editora da UERJ vem desempenhando, mesmo em um momento de asfixia financeira. É também sinal de que a EdUERJ está cumprindo sua missão de estar em sintonia com o que há de relevante na área acadêmica.  
Segundo a autora, professor Sonia Netto Salomão, que leciona na Universidade de Roma 1, a obra também é alvo de interesse fora do Brasil, fato percebido em suas palestras:

– O livro foi muito bem recebido em espaços de prestígio no exterior, como a Universidade de Roma 1, em que trabalho, a Fundação Saramago, em Lisboa, a Fundacion Hispano-brasileira, em Madri e em Harvard University, em Cambridge. Eu mesma me admirei do interesse que as pessoas começam a ter no exterior, finalmente, por Machado de Assis. Aliás, um autor que merece, sem nenhum favor, estar ao lado de grandes nomes como Stendhal, Flaubert, Gogol, e também Borges ou Calvino.
A cerimônia do 59º Prêmio Jabuti entregará estatuetas para vencedores de 29 categorias, em evento no Auditório do Ibirapuera (Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera – São Paulo / SP), às 19h30.

Abaixo, a entrevista, na íntegra, com a autora Sonia Netto Salomão.

Machado de Assis é tema de seu livro, e também do que foi escrito por Silviano Santigo, vencedor na categoria melhor romance. O que você considera que faz Machado de Assis manter tamanho fascínio, atravessando séculos e fronteiras

O simples fato de ser um clássico. Os clássicos, como bem resumiu Italo Calvino, são livros que chegam até nós com as marcas de leitura que precederam a nossa e que nos dão a imediata sensação de estar relendo algo conhecido. Também deixam atrás de si traços que marcarão as culturas que atravessaram.

Para mim o fascínio de Machado está nas charadas disfarçadas que propõe, no seu diálogo com o cânone, de forma sempre aberta, lúdica e jamais subalterna. E o fato de não ter desistido jamais de superar a si mesmo. Na epígrafe do meu estudo está um verso de Drummond que resume este viver para a literatura. Além disso Machado forjou um cânone próprio a partir do profundo conhecimento que tinha da cultura brasileira e da cultura clássica, antiga e moderna. É bom lembrar que ele dominava técnicas modernas da narrativa, o que faz dele um autor contemporâneo a nós.

Como surgiu a ideia de fazer a pesquisa que culminou na publicação de “Machado de Assis e o cânone ocidental”?

Este livro foi se construindo aos poucos em torno de uma ideia central que está no título do primeiro capítulo: “A um crítico”. Aquele amálgama de citações,de rasuras, de vai e vens que se concentram nas Memórias póstumas de Brás Cubas, mas que se disseminam por toda a obra, intrigavam-me há muito tempo. Fui puxando os fios de um hipertexto que me levaram às leituras de Machado e ao modo como ele as selecionava. Imaginei o seu espanto com o Viagem à roda do meu quarto, de Xavier de Maistre, e como comparou os diversos livros de viagens que se escreveram no seu tempo e que faziam parte da sua biblioteca. Como comparou Garrett e De Maistre, por exemplo. Li as Promenades dans Rome (1829), de Stendhal, na mesma edição que leu Machado, e fui descobrindo o seu método de trabalho. A “tinta da melancolia” ele foi buscar em Maquiavel. Mas só quando comprei L’Encre de la mélancolie, livro de um de meus críticos preferidos, Starobinski, é que compreendi a potência daquela imagem, daquela frase, das relações que me levaram a Hipócrates e a Demócrito e daí ao surpreendente “Do riso e da loucura”, do século I no qual Machado bebeu para escrever o não menos surpreendente “O Alienista”, adaptado à Itaguaí. O resto está nos 3 capítulos que se entrecruzam  (Machado lúdico; Machado e a Itália). Destacaria, apenas, no terceiro capítulo, a reconstrução do contexto italiano (que é parte do cânone machadiano e brasileiro, como um todo, no período, em que aliei a minha paixão pela pesquisa histórica à busca filológica de palavras recorrentes. Aqui entram Dante, as traduções italianas de Shakespeare e a ópera italiana.

Por fim, poderia falar sobre a importância para você, como autora, de receber este prêmio?

Para mim o Jabuti é um prêmio sério, sendo este o valor imprescindível para um autor. Naturalmente, para uma brasileira que trabalha no exterior o reconhecimento de um prêmio nacional tem um sabor especial. Uma espécie de “missão cumprida” ; ou pelo menos de parte dela, como nos ensinou o mestre no seu incansável percurso; porque há ainda muito a dizer. O Prêmio Jabuti confirma este roteiro.

O livro foi muito bem recebido em espaços de prestígio no exterior, como a Universidade de Roma 1, em que trabalho, a Fundação Saramago, em Lisboa, a Fundacion Hispano-brasileira, em Madri e em Harvard University, em Cambridge. Eu mesma me admirei do interesse que as pessoas começam a ter no exterior, finalmente, por Machado de Assis. Aliás, um autor que merece, sem nenhum favor, estar ao lado de grandes nomes como Stendhal, Flaubert, Gogol, e também Borges ou Calvino.

 

 

 

 

 

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